Bem-vindo, bienvenido, bienvenu, benvenuto, welcome....


Silêncio cósmico

Pudera eu regressar ao silêncio infinito,

ao cosmos de onde vim.

No espaço interestelar, vazio, negro, frio,

havia de soltar um grito bem profundo

e assim exorcizar todas as dores do mundo.

Regina Gouveia

domingo, 23 de julho de 2017

Roma , cidade eterna...


Em 1999, o meu filho Nuno, recém licenciado em arquitetura, que ao tempo tinha uma namorada italiana, de Treviso, conseguiu emprego num atelier de arquitetura, na referida cidade, muito perto de Veneza.Ali viveu e trabalhou durante um ano,findo o qual ambos vieram para Portugal.
Durante a estadia fomos visitá-lo. Ficámos alojados em Treviso. Durante o dia o Nuno trabalhava pelo que, logo de manhã saíamos de comboio até à estação de Santa Luccia, onde apanhávamos o vaporetto para S. Marcos. Passávamos o dia na cidade. Numa das vezes fomos visitar a belíssima ilha de Murano e num outro o Lido, onde pudemos ver o hotel onde foi filmado “Morte em Veneza” O Nuno ia ter connosco após o trabalho e ao fim do dia regressávamos a Treviso. Também aproveitámos para ir de comboio a Pádua. Com os pais da namorada fizemos um passeio de barco pela laguna ( o pai tinha um pequeno iate) e visitámos outros lugares interessantes na região, nomeadamente as ruínas https://pt.dreamstime.com/foto-de-stock-ru%C3%ADnas-do-f%C3%B3rum-na-cidade-antiga-de-aquileia-image77812957 de Aquileia https://en.wikipedia.org/wiki/Aquileia   e a cidade de Grado 

Como na altura não tinha um blogue, não fazia o registo das viagens e já não consigo identificar vários dos lugares que visitei.
Voltei a Itália em 2010 com uma amiga que viaja muita vezes connosco. Nesse ano fomos apenas as duas e visitámos o sul de França, o Mónaco, as cidade de Verona e Milão, e o lago Como em Itália e as cidades de Saint Moritz na Suiça e Innsbruck  na Áustria, Um pequeno relato da viagem pode ser lido aqui.

Desde há muito sonhava visitar as cidades de Florença e Pisa, bem como as ruínas de Pompeia e a cidade de Roma.
Como a amiga que costuma viajar connosco tinha o sonho de ir a Veneza, optámos por um programa que incluísse a cidade. Partimos dia 10, rumo a Roma.

No aeroporto, um piano onde as pessoas podiam tocar... Ideia simpática

Foi o meu marido que tratou da viagem. Geralmente eu pesquiso na NET a localização dos hotéis antes de me decidir pelo programa. Mas com os dias tão preenchidos, não tive a menor hipótese de o fazer.Quando me apercebi, já era tarde. Os hotéis ficavam muito longe do centro das cidades, muito em particular o de Roma . Ora nós gostamos de explorar as cidades sem a pressão das viagens de grupo…Mesmo assim ainda conseguimos descobrir uma ligação, parcialmente por metro e o resto por autocarro que ligava o hotel ao centro da cidade em 40 min.
Roma é muito mal servida de metro. Tem praticamente duas linhas e curtas. Por outro lado o serviço de autocarros é muito inferior ao nosso. Dentro do autocarro não temos qualquer informação sobre o local onde estamos. O condutor está isolado dos passageiros por um vidro pelo que não é possível pedir-lhe qualquer informação. Resta a boa vontade dos passageiros que gentilmente vão informando “ è la prossima fermata”, mancano due fermate”….

A visita ao Vaticano estava incluída no programa geral pelo que fomos em grupo. Não imaginava que os seus Museus tivessem uma tal dimensão. Aqui ficam alguma imagens da visita.



















Após a visita ao Vaticano, havia a visita à cidade mas nós fomos “por nossa conta”. Junto ao Coliseu havia um grande aparato militar. À noite soubemos pela TV que estavam alerta e em perseguição de um fundamentalista que foi preso dois dias depois em Peruggia.

Por todo o lado vestígios da sumptuosidade da Roma antiga







Aqui a Fontana de Trevi, umas das muitas fontes famosas de  Roma


Na NET seleccionei dois vídeos que ajudam a ter uma ideia das cidades de Roma e do Vaticano


https://www.youtube.com/watch?v=j7h6QxPKBVw


https://www.youtube.com/watch?v=Uz6dtJUm5G0


A propósito de Roma não resisto a referir o filme MAMMA ROMA dirigida por Pier Paolo Pasolini, com  Anna Magnani que podem ver aqui na íntegra
https://www.youtube.com/watch?v=yNbE5X2jmJ8. Já o vi inúmeras vezes.



sábado, 22 de julho de 2017

Biodiversidade....


A minha última mensagem data de 9 de julho. No dia 10 de manhã parti para Itália e regressei a casa, no dia 17 por volta da meia noite. Espero colocar no blogue uma breve reportagem da viagem. Como já referi várias vezes, o blogue funciona para mim como uma espécie de “diário”, que de outra forma não escreveria. Sei que é maçador para alguns leitores mas, por outro lado, tenho vários amigos que, sempre que viajo, me pedem para posteriormente fazer o relato pois, caso não conheçam ficam com alguma ideia, caso conheçam podem confrontar as minhas “sensações” com as que viveram. Pessoalmente, antes de viajar gosto de consultar blogues sobre viagens aos locais a que me irei deslocar e essas consultas já me têm sido muito úteis, nomeadamente desta vez, na minha breve visita a Frankfurt. Mas a seu tempo relatarei pormenores.

Regressada dia 17 à noite tinha os meus dois filhos à espera no aeroporto, obviamente sem a família pois os meninos dormiam há muito…
No dia 15 tinha decorrido no Coliseu, um espetáculo de ballet , O lago dos Cisnes, com alunos da Academia de Dança da Boavista onde as minhas netas têm aulas. Não pude estar presente mas deixo um pequeno excerto do Pas de Quatre em que a minha neta Rita participou https://www.facebook.com/search/top/?q=teresa%20feij%C3%B3

No dia 18, logo às 9 da manhã retomaria as minhas funções de babby sitter de que já tinha saudades… No dia seguinte, na sequência de um desafio da minha nora Teresa, fui com ela e os três mais pequenos (a Rita tem estado num campo de férias de onde regressa hoje)ver a exposição sobre biodiversidade, na Casa Andresen

A experiência mora na Casa Andresen do Jardim Botânico do Porto, um palacete do século XIX, onde Sophia de Mello Breyner brincou. E onde hoje, arriscamos, se divertiria muito também. O museu foi aberto há 101 anos e inaugurado pelo então Presidente da República, Bernardino Machado. O livro original da cerimónia assinado estará lá hoje, ao lado de outro que Marcelo Rebelo de Sousa deverá assinar. Mas, agora, existe ali algo completamente diferente.

Da visita, que recomendo vivamente, deixo alguma imagens. 
O resto do dia foi repartido por diversas atividades: ensaio do teatro que vamos levar a cabo na aldeia, leitura, piscina, futebol, etc...






 

 

domingo, 9 de julho de 2017

De música e de poesia

Parto amanhã para Itália num visita breve, de 8 dias. Após uma semana muito preenchida, aproveito uns minutinhos de descanso para colocar esta mensagem.
Ontem e anteontem tiveram lugar num dos auditórios da  Casa das Artes, os concertos Teclarte, conforme anunciei na penúltima mensagem. Por isso, esta semana foi pródiga em ensaios...
O José participou nos dois dias, com o baixo. No dia 7 participou ainda com ukulele . Nesse dia a Marta participou em piano e eu em ukulele. Não tive oportunidade de tirar fotos e o meu filho ainda não mas mandou. No dia 8 fotografei e fiz um pequeno vídeo da atuação do José, mas não consigo pôr o vídeo na mensagem
 
No dia 8 teve lugar, no jardim da Casa das Artes, o "pic nic" Teclarte. Além dos meus dois netos que frequentam a escola, levei também o meu neto Bernardo.
Às 15 h houve  mais um momento musical- um recital de piano no outro auditório .A minha nora teve que sair com a Marta que ia para as suas atividades de escuteira, eu fui assistir ao recital e os miúdos ficaram a brincar no jardim supervisionados por adultos, entre eles o meu filho Nuno.


Nos concertos Teclarte entram genericamente todos os alunos pelo que muitas atuações são muito simples. Há no entanto belíssimas atuações como a última do recital de piano em que o pianista foi um aluno(creio que engenheiro de profissão) que acabou de obter o diploma de 8º grau pela  escola ABRSM      a que a Teclarte está "ligada"
Houve também algumas boas atuações de professores, quer em piano quer em flauta transversal.

Comecei por referir que a última semana foi muito preenchida. O meu neto José  frequentou atividades da Universidade Júnior, que teve  que conciliar com os ensaios. A Rita andou sobrecarregada com ensaios para o espetáculo de ballet, O Lago dos cisnes,  que terá lugar no próximo fim de semana e em que a Marta também vai participar ( não vou poder assistir, com muita pena...).
Durante a semana ficaram comigo a Marta e o Bernardo. Ao longo de cada  dia, apenas 0,5h  podia ser dedicada ao tablet e /ou à TV pelo que tive de imaginar várias atividades, entre elas a preparação do nosso teatro de verão.
Envolveram-se de tal modo que além de dicas para o texto e posterior estudo das falas de cada um ( agora já os dois sabem ler), quiseram fazer cartazes,, pensar nos "cenários" etc.


Sem desvendar o tema, refiro apenas que há uma relação com morcegos. Este é um dos cartazes que eles imaginaram e fizeram ( os morcegos negros são obra da Marta e os coloridos são do Bernardo)


Na quinta feira de manhã fui ao voluntariado e o meu marido ficou com eles. Foi a vez do  tablet e a TV.
Quando ia para o Hospital, cerca das 7,45, ao passar na Rua do Monte Cativo vi uma ruínas com umas flores selvagens (muito abundantes em vários lados) e não resisti a fazer uma fotos.




Um boa  inspiração para um poema, tivesse eu tempo.....

Entretanto deixo-vos com um dos primeiros poemas que publiquei e com um excerto de O Lago dos Cisnes, precisamente o Pas de Quatre que a minha neta Rita vai dançar

Exploração
Qual exploradora, parti um dia.
Embrenhei-me na selva da vida
onde sabia andar escondida
a poesia
Encontrei-a
na luz ténue do sol ao fim do dia,
na molécula, no átomo, no quantum de energia,
nas leis de Newton, no conceito de entropia.
Encontrei-a
na reflexão da luz, na impulsão no ar,
no cheiro a maresia e nas algas do mar,
no orvalho, na geada, na chuva, no luar.
Encontrei-a
no ínfimo e no imenso que a vista não alcança,
nas rugas dum idoso, no rir de uma criança,
numa tela, num concerto, numa dança.
Encontrei-a
no voo da gaivota, na pétala da flor,
na chama que tremula e se multiplica em cor
e que irradia energia na forma de calor
Encontrei-a
nas estrelas, nas galáxias mais distantes,
no olhar apaixonado daqueles dois amantes,
nos extintos dinossauros de dimensões gigantes.
Encontrei-a
em medusas, corais, nos fundos oceanos,
no vento a agitar nas árvores os ramos,
em pinturas rupestres com vários milhares de anos
Encontrei-a
na violeta escondida no canto do jardim
e no frasco que continha essência de jasmim.
Tentei então guardá-la só para mim.
Foi assim que ela se evolou
e de novo eu aqui estou
a procurá-la.

In Reflexões e Interferências, 2002


https://www.youtube.com/watch?v=lQ1sE0iNnSY

quinta-feira, 6 de julho de 2017

No mundo das palavras...


Na última mensagem deixei um poema do meu novo livro “Quando o mistério se dilui na penumbra”
 
Hoje deixo dois poemas publicados na revista Philos  cujo acervo pode ser consultado aqui

É a segunda vez que envio poemas para a revista. Em  ambos os casos foram seleccionados

Da primeira vez enviei o poema  Numa esquina do tempo que pode ser visto aqui 

Luxuriosas,
as estrelas crepitam no céu negro.
Voluptuosos,
os ramos das árvores afagam a escuridão.
Quais garças,
miríades de sonhos esvoaçam ledos.
Titubeante,
o amor deambula por entre apaixonados.
Helena ama Demétrio,
que ama Hérnia, que ama Lisandro.
Errante, a paixão…
Titânia ama um ser com cabeça de animal.
Duendes e fadas
volteiam por entre a bruma esquiva.
Gorjeia a poesia.
No ar, o róseo perfume da madressilva.
A noite estremece.
De flautas e oboés, refulgem os trinados.
Amores reencontrados…
Flutuam acordes da marcha nupcial.
Cúmplice, a magia…
Florescem os sonhos na noite de verão.
Numa esquina do tempo,
Shakespeare, Mendelson e Chagall.
Subtil, a aurora desliza noite adentro.
Vénus regressa.
Ao amanhecer, esvai-se a fantasia.
Balbuciante, o dia…
rumoreja o bosque, despertando lento
Desta vez enviei os dois poemas que seguem e que na revista estão acompanhados da imagem anexa
Se…
É belo este batente.
Dos pulmões do mineiro,
que delida a vida desventrando a terra,
ao suor do ferreiro,
que, moldando o ferro, o corpo cresta,
quanta história contaria se falasse?
Quantos bateres lhe acudiriam à memória?
O bater saltitante da criança,
o bater sem cor e sem esperança
do homem revoltado com a vida,
o bater daquele apaixonado que, enlevado,
ali depôs uma alegre margarida?
Se esse batente falasse….


Semelhanças

Centenária, aquela porta repleta de memórias.
Qual retorta, dela se evolaram por frinchas mal vedadas,
enredos, paixões, amores, traições, alegrias, rancores, segredos,
fragmentos de vidas, em histórias condensadas.





Deixo também um poemas do livro Fui quase todas as mulheres de Modigliani, de Graça Pires, a quem já várias vezes fiz referência
Menina de azul

Em todos os relógios
da cidade, os ponteiros
marcam a hora
inesperada da inocência.
Tudo parece perfeito,
excepto o meu rosto 
de menina, asfixiado 
na moldura do tempo              




domingo, 2 de julho de 2017

Enigmas da natureza


Ainda a propósito das flores dos catos a que me referi na mensagem anterior…

Quando disse ao meu marido que as tinha referido no blogue, enviou-me as fotos que tirara quando pela primeira vez abriram, todas ao mesmo tempo, na noite de 9 de Junho. Era lua cheia...



Pesquisando na NET encontrou referência a flores de catos que abrem precisamente em noites de lua cheia e duram poucas horas.


Ela só abre à noite.

Como o Girassol abre para o Sol, ela abre para a Lua.

Uma vez por ano, segundo dizem ,por umas 2 horas, as flores brancas dessa rara espécie de cactus (Selenicereus witti) se abrem numa noite de lua cheia no ano.



Ficou a aguardar a lua cheia de Julho...Só que abriram antes, mas todas (três) ao mesmo tempo.
Numa nova pesquisa na NET, encontrei uma outra referência que não faz alusão à meia noite

Existe um número relativamente pequeno de espécies de plantas com flores que abrem à noite e fecham durante o dia, entre elas o cacto Selenicereus grandiflorus,


A natureza é, de facto prodigiosa…
Vivemos nesta casa ( desde 1984) e temos o privilégio de ter um pequeno  quintal / jardim, o reino do meu marido, onde há de tudo um pouco ( obviamente, uma força de expressão), desde a horta miniatura ao pomar ( uma cerejeira, duas ameixoeiras, dois pessegueiros, dois limoeiros, uma laranjeira , uma tangerineira, uma oliveira, uma figueira e uma macieira) passando pelas ramadas, uma de videira, outra de de quivi sob a qual fazemos algumas refeições, sempre que o tempo o permite




Há também algumas(poucas) plantas ornamentais como  uma glicínia (que já floriu), no pátio do meu filho Miguel  e uma  buganvilia, agora exuberante




  Este ano tivemos muita fruta. Agora só têm frutos ainda verdes a figueira e a macieira .





















Ode à maçã

Amarelo, verde, rubro, o epicarpo da maçã
cobre o mesocarpo, saboroso.
No âmago do fruto, sementes no endocarpo,
que as aconchega, cioso.
Sensual, brejeira, da árvore pendia.
Eva não resistiu à sedução
Em longa cabeleira tombou, descuidada.
Newton desvendou a gravitação.
Na fruteira, impassível, exala um doce aroma.
O ar adormece, inebriado.
Resistir é impossível. Trinco-a.
Com volúpia saboreio o pomo sublimado. 
(Gouveia, R. 2017, in Quando o mistério se dilui na penumbra)

Neste fim de semana tenho tido algum tempo para mim. …

A minha neta mais nova foi mais uma vez acampar com os escuteiros. Os pais aproveitaram e foram, com o José, passar o fim de semana a Santiago de Compostela. A Rita teve ensaio de ballet (o espetáculo vai ser dia 15) pelo que teve que almoçar cedo. Assim, apenas vieram almoçar os pais e o irmão. Depois de almoço ficámos sós, pois após o ensaio iriam todos para Esmoriz onde a minha nora tem casa.


Agora  já é domingo.

Nos próximos dias 7 e 8 teremos o concerto de Verão da Teclarte, na Casa Das Artes, como é habitual.


Aproveitei para treinar um pouco a música (I ´m yours) que, juntamente com o meu neto e mais alguns alunos vou tocar dia 8 em ukulele




O José vai também tocar baixo nos dois dias (Moves Like Jagger ) e a Marta vai tocar piano, no dia 7 (Chopsticks).




Daqui a pouco vou buscar a Marta a Campanhã. Regressa do acampamento….



sábado, 1 de julho de 2017

Benditos inúteis!

O título desta mensagem fui buscá-lo a um texto de João Paiva, Professor no Departamento de Química da FCUP publicado aqui    sob o título :A apologia da ciência e a inutilidade das artes e das humanidades.
Com a devida autorização do autor,transcrevo alguns excertos

Tenho mais de 30 anos dedicados à ciência, principalmente ao seu ensino e divulgação. Não me canso de sublinhar o fascínio pela forma científica de questionar, conjeturar, observar, experimentar, teorizar e até prever o que se passa no mundo natural. São, resumidamente, duas as pérolas desta empresa científica: a) o sabor, o gozo, o prazer e o deleite de tatear a natureza; b) a potencialidade benfazeja que os conhecimentos científicos encerram, uma vez que, quando aplicados por meio do que chamamos tecnologia, podem beneficiar a humanidade. O aumento médio da esperança e da qualidade de vida, à escala global, é um bom exemplo que sentimos (infelizmente não todos...).

(...)Como químico, sempre fui impelido para as misturas... Nós, químicos, focados na realidade atómico-molecular, passamos a vida a fazer análises e sínteses... As análises permitem-nos saber o que está e quanto está. As sínteses são muito relevantes: ligam, constroem, geram novos materiais e novas vidas. As ciências exatas estão carentes de sínteses. Temos de ter a consciência da artificialidade das disciplinas científicas, face à natureza que teima em ser uma só. Sim, separamos para analisar, mas, se perdemos a noção da floresta, lá ficamos míopes ao ver só a árvore.

(...(Os docentes e investigadores universitários vivem um dilema: a sua carreira é dramaticamente competitiva. As exigências de financiamento não nos permitem desperdiçar oportunidades de projetos. Alguma burocracia, sem retaguarda de secretariados de apoio, subtrai-nos imenso tempo. A leitura e a escrita de artigos em grande número deixam muito pouco tempo para outras leituras. Mas o virar as costas às humanidades pode ser fatal para a ciência. E, portanto, quanto mais não seja pela ciência, teremos de ser criativos para reconhecer e valorizar o que somos e ao que vamos, numa perspetiva humanista. Estar conscientes de que a grande pergunta da ciência, nas palavras de Schrödinger, é também a grande pergunta do Homem: “quem somos nós?”

(...)Estas reflexões deverão ter implicações na vida académica das escolas de ciência. As faculdades, incluindo as de ciências, têm obrigação de proporcionar aos seus alunos, aos seus docentes e investigadores espaços de reflexão transdisciplinar e de alargamento de horizontes culturais.

 (...)Perceber-se-á agora melhor o título deste texto(….)A ciência, recuperando a sua humildade epistemológica, deve saber abrir-se às artes e humanidades. Um cientista sabe que a sua grelha é um dos instrumentos para se ler o mundo, mas nunca o único, nem o melhor. Sabemos que Kant, Tolstói ou Beethoven nos deliciaram e apontaram caminhos... e não tinham laboratórios. Benditos inúteis!

Para além de filósofos, escritores, músicos, podemos encontrar benditos inúteis
em várias outras áreas. Assim atrevo-me a acrescentar alguns de entre os inúmeros que se poderiam citar: Leonardo, Rodin, Pessoa,  Ingmar Bergman , Sebastião Salgado, Picasso, Monet….

Para colocar na mensagem, escolhi Monet e uma das suas obras com nenúfares


Isto porque, num baldio atrás de minha casa, desabrocharam, mais uma vez, flores de uns catos que o meu marido ali plantou para tornar menos lúgubre o espaço.





E não sei bem porquê, as flores lembraram-me de imediato os nenúfares de Monet.


A terminar, regresso ao texto de João Paiva,

As faculdades, incluindo as de ciências, têm obrigação de proporcionar aos seus alunos, aos seus docentes e investigadores espaços de reflexão transdisciplinar e de alargamento de horizontes culturais.

Na minha carreira de professora de Física e Química e de formadora de professores nessa áreas, sempre tentei harmonizar ciências e humanidades. Ambas as áreas desempenham um papel fundamental na formação integral de uma pessoa.