Bem-vindo, bienvenido, bienvenu, benvenuto, welcome....


Silêncio cósmico

Pudera eu regressar ao silêncio infinito,

ao cosmos de onde vim.

No espaço interestelar, vazio, negro, frio,

havia de soltar um grito bem profundo

e assim exorcizar todas as dores do mundo.

Regina Gouveia

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

Entrudo

Entrudo

Passei parte da minha infância numa aldeia do concelho de Alfândega da Fé onde regresso .com frequência. Ao longo do ano havia algumas festividades essencialmente religiosas, o Natal, a Páscoa, a festa de S. Tiago, orago da freguesia, e duas festas ( uma em maio, só religiosa, outra em setembro a típica romaria transmontana) em honra de Santo Antão da Barca cuja capela, então situada na margem direita do Sabor, foi há uns anos transladada por causa da construção da barragem
A par dessas havia outras, de carácter pagão, nomeadamente o Entrudo, com os caretos, os casamentos e a queima do entrudo.

Os caretos não tinham o “estatuto” dos caretos de Podence (https://www.youtube.com/watch?v=NCSjzvUTGdU)


Os caretos da "minha aldeia" eram  rapazes, homens, meninos, fantasiados geralmente de raparigas e disfarçados com umas máscaras rudimentares. Corriam em grupo pela aldeia, alguns munidos de chocalhos e enfarinhando as pessoas (muito em especial mulheres e raparigas), sempre que podiam.

A par dos caretos havia um cortejo humorístico. Recordo-me apenas de um “sketch”, teria os meus sete anos, que me divertiu muito. Um homem que   fazia de “dentista”, tinha nas  mãos  um alicate enorme e transportava,  às costas, uma máquina de sulfatar


 Ao lado, um outro simulava uma dor de dentes. Tinha a cara envolvida num trapo branco e gritava Ai...ai…. Então o primeiro mandava-o abrir a boca, com a máquina de sulfatar fingia que a desinfetava e, de seguida, com o alicate simulava extrair o dente. Logo depois exibia na mão parte de uma dentadura de cavalo e comentava Coitado do home. Como num l´abia de doer o dente....

E o sketch” ia sendo repetido de onde em onde ao longo do cortejo.

Havia também os casamentos satíricos que se passavam mais ou menos assim:
Na noite do sábado anterior ao dia de carnaval, rapazes munidos com um funil para distorcer e simultaneamente amplificar a voz, deslocavam-se para o ponto mais elevado da aldeia e,  encobertos pela escuridão, procediam ao ritual do casamento, de modo idêntico ao que descreve aqui

- Ó camarada!
- Olá companheiro!
- Há aqui uma rapariga boa para se casar...
- Quem é que lhe havemos de dar?
- Damos-lhe fulano...
- E que prenda lhe havemos dar?
- Damos-lhe uma toalha de estopa!

No fim do dia de carnaval ou na quarta feira de cinzas tinha lugar a última celebração- a queima do Entrudo simbolizado por um boneco de palha

Creio que a partir dos meus 9 anos, nunca mais assisti a um entrudo na aldeia. Em Bragança, no âmbito da atividades da escola festejava-se o carnaval, mas de forma bem diferente. Alguns alunos (essencialmente alunas) fantasiados, participavam num espetáculo com música, poesia, danças regionais. Lembro-me de ter participado em vários, tocando acordeão, dançando, cantando, mas fantasiada, creio que só uma vez. Foi a minha mãe que imaginou e fez a fantasia de baiana. Assim fantasiada , li um poema que um tio meu sugeriu. 


Lembrava-me apenas de dois versos do poema

Brasil e Portugal trago-os no peito
Unidos pela amizade e pela história

Mas este mundo fantástico da Internet. , permitiu-me chegar ao texto todo...

Sou português e grito ao mundo inteiro
Filho de gente humilde, mas honrada
E se adoro o Brasil hospitaleiro
Jamais esquecerei a Pátria amada.
Brasil e Portugal trago-os no peito
Unidos pela amizade e pela história
Se devo a Portugal o meu respeito
Ao Brasil devo toda minha glória.
Sinto pela minha Pátria devoção
Mas amo tanto a Pátria brasileira
E chego a não saber se o coração
Ama a segunda mais do que a primeira
E por ser do Brasil um grande amigo
Sou brasileiro afirmo muita vez
E sinto orgulho igual de quando sinto
Nasci em Portugal, sou português.
Portugal é meu torrão natal
A Pátria mãe de heroís e de guerreiros
Mas se o Brasil nasceu de Portugal
Eu sou portanto irmão dos brasileiros.


Com esta pesquisa fiquei a saber que se trata da letra de um fado da autoria de A. Ferreira e Gonçalves Dias, gravado em disco Odeon, em 1937, um dos fados mais significativos do repertório de Manoel Monteiro  que, em 1949, foi homenageado pela classe artística brasileira com um evento realizado no Teatro Carlos Gomes, por ter sido o primeiro cantor português a ter sucesso no Brasil.

A partir do ensino secundário desliguei-me das atividades de carnaval. Só voltei a “envolver-me” quando os meus filhos foram para o Jardim de Infância João de Deus. As fantasias com que eles participavam nas festas de eram muito simples, imaginadas e feitas por mim e /ou pelo pai. Só encontrei duas fotos mas aqui as deixo.



Voltei a “reencontrar” o carnaval, agora com os netos. Em anos anteriores já aqui coloquei fotos de cortejos escolares em que participaram. Hoje fui assistir a mais um-o da Escola Bom Pastor, que a minha neta mais nova frequenta. Mais uma vez pude constatar o consumismo desta nossa sociedade. As fantasias são compradas e algumas aparentam um custo relativamente elevado…

Deixo  duas fotos desse cortejo




Termino com   Chico Buarque- Quem te viu, Quem te vê  e  Vai passar









sábado, 11 de fevereiro de 2017

Não há mal que sempre dure....


Se habitualmente a falta de tempo é a principal razão por que passo muito tempo sem escrever no blogue, nas últimas semanas,  à razão referida juntou-se uma outra. Mais uma crise das minhas “ites” -rinite, faringite, laringite, sinusite. Praticamente sem voz durante 15 dias, começo agora a recuperar mas a tosse não me larga pelo que tenho dormido muito mal e, consequentemente, sinto-me cansada. Mas não há mal que sempre dure, nem bem que nunca se acabe, diz o ditado.
Assim, também tenho boas notícias.

Já estão on-line os textos que resultaram do desafio lançado pelos CTT e de que falei aqui na mensagem de 2016-12-30.
Lá poderão encontrar o texto da minha neta Marta- O passarinho -e um meu (Umm,...Umm...). Mas há textos de vários países, muito em particular do Brasil.
Muitos dos textos são ilustrados com fotografias, alguns com desenhos e pinturas comoeste: 

Hecho casual
Hace algunos años un hecho casual me
acercó a la pintura, y la fotografia ellas
estan vinculada con el alma, y sin buscarlo,
se transformó y se plasma en colores y vivencias
recuperadas…
Por Ida De Vincenzo, que vive na Argentina.

Ao consultar a página, deparei com a revista digital dos CTT, que não conhecia 
Ali encontrei vários textos muito interessantes, de que deixo  exemplos: 
Às árvores do bosque
O poeta que ia ser monge (Daniel Faria)

Um dos textos  chamou-me particularmente a atenção – uma entrevista com Domingos Loureiro, de quem já aqui falei várias vezes pois tive o privilégio de ser “aluna”na escola de pintura UTOPIA

A par dessa entrevista incluo uma outra, mais antiga publicada aqui

E já que referi o poeta Daniel Faria, termino com  dois  belíssimos poemas seus

As mulheres aspiram a casa para dentro dos pulmões

E muitas transformam-se em árvores cheias de ninhos - digo,

As mulheres - ainda que as casas apresentem os telhados inclinados

Ao peso dos pássaros que se abrigam.

É à janela dos filhos que as mulheres respiram

Sentadas nos degraus olhando para eles e muitas

Transformam-se em escadas

Muitas mulheres transformam-se em paisagens

Em árvores cheias de crianças trepando que se penduram

Nos ramos - no pescoço das mães - ainda que as árvores irradiem

Cheias de rebentos

As mulheres aspiram para dentro

E geram continuamente. Transformam-se em pomares.

Elas arrumam a casa

Elas põem a mesa

Ao redor do coração.


in  Homens Que São Como Lugares Mal Situados(1998)


Caminho sem pés e sem sonhos

só com a respiração e a cadência

da muda passagem dos sopros

caminho como um remo que se afunda.

os redemoinhos sorvem as nuvens e os peixes

para que a elevação e a profundidade se conjuguem.

avanço sem jugo e ando longe

de caminhar sobre as águas do céu.

in Explicação das Árvores e de Outros Animais(1998)


quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

Un Soir à Lima

Un Soir à Lima, é uma obra do compositor Félix Godefroid (1818 -1897). 

https://www.youtube.com/watch?v=7IKeNPNTTqg

Esta obra inspirou Pessoa que, com o mesmo título, escreveu um poema belo e longo.

(...) «Un Soir à Lima» (sugerido pela composição musical homónima — de Félix Godefroid —, que, ouvida na rádio, fez o poeta recordar-se dos serões em Durban, quando, ao piano, a sua mãe tocava o mesmo «Un Soir à Lima»). in 

O poema, do qual deixo excertos, pode ler-se aqui

UN SOIR À LIMA

Vem a voz da radiophonia e dá
A noticia num arrastamento vão:
“A seguir
Un Soir à Lima“…
Cesso de sorrir…
Pára-me o coração…
E, de repente,
Essa querida e maldicta melodia
Rompe do apparelho inconsciente…
Numa memoria subita e presente
Minha alma se extravia…
O grande luar da Africa fazia
A encosta arborizada reluzente.
A sala em nossa casa era ampla, e estava
Posta onde, até ao mar, tudo se dava
À clara escuridão do luar ingente…
Mas só eu, à janella.
Minha mãe estava ao piano
E tocava…
Exactamente
“Un Soir à Lima”.
Meu Deus, que longe, que perdido, que isso está!
Que é do seu alto porte?
Da sua voz continuamente acolhedora?
Do seu sorriso carinhoso e forte?
O que hoje ha
Que m’o recorda é isto que oiço agora
Un Soir à Lima.
Prossegue na radiophonia
A nossa, a sua melodia
O mesmo “Un Soir à Lima”.
Seu cabelo grisalho era tam lindo
Sob a luz
E eu que nunca pensei que ella morresse
E me deixasse entregue a quem eu sou!
Morreu, mas eu sou sempre o seu menino.
Ninguem é homem para a sua mãe!
E inda atravez de lagrimas não falha
Á memoria que tenho
O recorte perfeito de medalha
D’aquelle perfeitissimo perfil.
Chora, ao lembrar-te, mãe, romana e já grisalha,
Meu coração sempre infantil.
(...)
Tudo isso vive em mim
Por luzes, musica e a visão
Que não tem fim
D’essa hora eterna no meu coração,
Em que voltavas
A folha irreal da musica a tocar
E eu te ouvia e via
Continuar
A eterna melodia
Que está
No fundo eterno d’esta nostalgia
De quando, mãe, tocavas
Un Soir à Lima.
(...)
Não ter aqui numa gaveta,
Não ter aqui numa algibeira,
Fechada, haurida, completa,
Essa scena inteira!
Não poder arrancar
Do espaço, do tempo, da vida
E isolar
Num logar
Da alma onde ficasse possuida
Eternamente
Viva, quente,
Essa sala, essa hora,
Toda a familia e a paz e a musica que ha
Mas real como alli está
Ainda, agora,
Quando, mãe, mãe, tocavas
Un Soir à Lima.
Mãe, mãe, fui teu menino
Tam bem dobrado
Na sua educação
E hoje sou o trapo que o Destino
Fez enrolado e atirado
Para um canto do chão.
(….)
Já que não tenho lar,
Deixa me estar
Nesta visão
Do lar de então
Deixa-me ouvir, ouvir, ouvir —
Eu à janella
Do nunca mais deixar de sentir,
Nessa sala, a nossa sala, quente
Da Africa ampla onde o luar está
Lá fóra vasto e indifferente
Nem mal nem bem
E onde, no meu coração
Mãe, mãe
Tocas visivelmente,
Tocas eternamente
Un Soir à Lima.
(….)
E era nesta calma,
Nesta felicidade
Em que existia uma alma
(Meu Deus, que saudade!),
Que, sob a luz que dourava,
(Hoje onde é que isso está?)

Longe de onde o luar prateava,
Minha mãe tocava
Medalha attenta e humana ao piano,
Un Soir à Lima.
(….)

Ouvi excertos do poema, pela primeira vez, ontem na Unicepe,  numa sessão inserida num conjunto de atividades, com início às 18h e 30 min

Ás 21h teve lugar a apresentação do livro RITUAL SEM PALCO, de Manuela Nogueira

Manuela Nogueira é sobrinha de Fernando Pessoa a “Pequena dos chocolates” do poema TABACARIA de que também deixo excertos

TABACARIA
    Não sou nada.
    Nunca serei nada.
    Não posso querer ser nada.
    À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

    (...)
    Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
    Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
    À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
    E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.

    Falhei em tudo.
    Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
    A aprendizagem que me deram,
    Desci dela pela janela das traseiras da casa.
    Fui até ao campo com grandes propósitos.
    Mas lá encontrei só ervas e árvores,
    E quando havia gente era igual à outra.
    Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei de pensar?

    Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
    Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!
    E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
    Gênio? Neste momento
    Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu,
    E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
    Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
    Não, não creio em mim.
    Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!
    Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
    Não, nem em mim...
    Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo

    Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando?
    Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -
    Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
    E quem sabe se realizáveis,
    Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
    O mundo é para quem nasce para o conquistar
    E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
    (….)
    (Come chocolates, pequena;
    Come chocolates!
    Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
    Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
    Come, pequena suja, come!
    Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
    Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
    Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)

    (...)
    Quem me dera encontrar-me como coisa que eu fizesse,
    E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
    Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
    Como um tapete em que um bêbado tropeça
    Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.

    Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
    Olho-o com o deconforto da cabeça mal voltada
    E com o desconforto da alma mal-entendendo.
    Ele morrerá e eu morrerei.
    Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos.
    A certa altura morrerá a tabuleta também, os versos também.
    Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
    E a língua em que foram escritos os versos.
    Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
    Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
    Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,

    (….)
    Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?)
    E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
    Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
    E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.

    Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
    E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
    Sigo o fumo como uma rota própria,
    E gozo, num momento sensitivo e competente,


    O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
    Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.
    (O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
    Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
    Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
    Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, 
    e o Dono da Tabacaria sorriu.
    Álvaro de Campos, 1928
A propósito da apresentação do seu livro , Manuela Nogueira falou sobre o  tio. Na impossibilidade de transcrever o que ouvi, “sirvo-me “ da Internet.

O meu tio Fernando era a pessoa a que eu achava mais graça no mundo. Que me divertia, que me dava carinho. Era rara a semana em que eu levantava o guardanapo, à hora de jantar, e não tinha lá de baixo um presente. E a emoção dele a olhar para mim ao ver-me radiante ao descobrir que estava lá um brinquedo — uma coisa qualquer — naquele guardanapo.  ….in 

Outras revelações podem ser encontradas aqui 

E a propósito das memórias que Manuela retém e partilha a respeito do tio, Valter Hugo Mãe refere


A lucidez de Manuela Nogueira, a capacidade de contar, o impressionante e impressionado detalhe com que fala da sua infância, é um meio de transporte.
Pousamos em cada palavra a caminho dos anos de 1930. Eu sei que os livros são gente e eles operam exactamente assim. Mas gente ser um livro é mais raro, especialmente se a história que nos conta vem de um tempo, ou de uma realidade, que julgávamos esgotada de discurso directo. Subitamente, alguém está verdadeiramente dentro de um segredo. Uma coisa de conhecer e sentir. 
in  
Público, 19/07/2015 
À apresentação do livro seguiu-se a apresentação de “...pessoas de Fernando

Constou de uma seleção de textos de Fernando Pessoa ( e seus heterónimos ) suportados por um ambiente sonoro/cénico que acompanhou as diversas leituras
num trabalho coletivo de Gil Milheiro, Manuela Melo, Margarida Dias, Miguel Fernandes.
Foi também um momento muito bonito que pecou pelo excesso de nível sonoro. A sala era pequena e a amplificação exagerada.

Aqui fica uma foto




E porque falamos de Fernando Pessoa termino com dois retratos da autoria de
Almada Negreiros





1954








1964










Estes retratos sugeriram-me, já há uns anos, o poema:


Martinho da Arcada.
Sentado a uma mesa, o Poeta.
Ao lado direito, a bica, o açucareiro
e o número dois da revista ORPHEU.
Na mão esquerda a cigarrilha.
A mão direita sobre uma folha de papel,
onde a caneta assenta.
Amarelo, negro, encarnado,
por entre a geometria.
Dez anos depois outro retrato,
quase uma simetria.
O amarelo, mais acentuado, realça o estro.
A mão direita segura a cigarrilha,
a mão esquerda pousa sobre a folha de papel.
Esquerdino, destro?

Regina Gouveia, não publicado